6.6.10

Bad Idea


"As idéias na Terra eram sinais de amizade ou inimizade. O conteúdo delas não tinha importância. Amigos concordavam com amigos com o objetivo de expressar amizade. Inimigos discordavam de inimigos com o objetivo de expressar inimizade."

As concordâncias prosseguiram, não em nome do senso comum, da decência ou autopreservação, mas por amizade.

Os terráqueos seguiram sendo amistosos, quando deveriam estar pensando. E mesmo quando criaram computadores para pensar um pouco por eles, projetaram-nos não tanto para a sabedoria quanto para a amizade. Assim, estavam condenados."

VONNEGUT, Kurt - Café da Manhã dos Campeões.

3.3.10

O Papel do Livro



Chico Homem de Melo, em seu livro "os desafios do designer" faz uma observação interessante sobre as revoluções na mídia literária. Gutenberg promoveu uma mudança drástica no processo de produção em série. Mas ele não modificou a concepção dos livros e a forma de leitura. A primeira grande revolução na literatura aconteceu muito tempo antes, quando trocamos os rolos de pergaminhos (onde um livro era uma página contínua de rolagem horizontal) pelo formato de códice, ou seja, uma pilha de páginas retangulares, encadernadas. Na passagem do manuscrito à prensa tipográfica de Gutenberg, o formato dos livros permaneceu o mesmo.

Com o surgimento da internet, aí sim, soltamos as amarras do formato encadernado e, de certa forma, até retornamos à página contínua, só que agora a rolagem é prioritariamente vertical, na tela do computador. Agora, com o surgimento dos e-books, mais uma revolução de formato acontece, pois o livro virtual pode ser carregado no bolso. Mas não precisa ser folheado, e não precisa ser impresso, pode conter áudio, vídeo, interação.

Assim, dadas as possibilidades, projetar e escrever para e-books é muito mais do que apenas um bom texto. O livro do futuro não pode ser uma mera transcrição do papel para a tela. Há de se quebrar essa fronteira do simples "texto corrido" e passar a pensar em formatos totalmente novos e dinâmicos. Essa é a verdadeira revolução: não da mídia, mas do conteúdo.

Meu palpite pessoal? mesmo com tudo isso, o livro de papel, o jornal impresso e a revista, nada disso vai desaparecer. Não enquanto as novas tecnologias não puderem reproduzir com exatidão o aconchego do toque, da textura, do olfato no contato com o material impresso. E além disso, se é pra tentar imitar, melhor deixar o original (real) que cumpre bem o seu papel. O virtual deve vir a acrescentar, oferecer possibilidades novas, e não para substituir e fazer exatamente a mesma coisa que o papel já faz, com excelência.

Por tudo isso, eu acredito muito mais no iPad do que no Kindle. Ambos são capazes de armazenar o conteúdo de milhares de livros, sem ocupar espaço. Ok. Mas enquanto o Kindle tenta imitar uma folha de papel (se eu quisesse uma folha perfeita, eu comprava o livro de verdade), o iPad é capaz de oferecer muito mais recursos de mídia e interação do que apenas uma imitação do livro de papel. Além de, é claro, oferecer muito mais recursos do que apenas a leitura de livros.

Algumas pessoas criticam muito o iPad por causa da sua tela de LCD. Isto tornaria a leitura cansativa e, supostamente, ninguém aguentaria o cansaço ocular de ler um livro inteiro em uma tela luminosa. Já o Kindle tem uma tela que não emite luz e seria menos cansativo.

Mas o Kevin Rose, fundador do Digg.com, levantou um ponto pertinente em um episódio recente do Diggnation: Todos nós passamos horas a fio em frente ao computador, olhando para enormes telas de LCD. A maior parte deste tempo, estamos LENDO. Emails, blogs, notícias, twitter, forums, etc. Somando tudo, talvez muitos de nós lemos o equivalente a um livro por dia, ou mais, na tela do computador. E ninguém sai escandalizado com os olhos terrivelmente danificados por isso.

Na telinha do iPhone, na palma da mão, a experiência é ainda mais agradável. Basta ser prudente e ajustar corretamente o brilho da tela e o tamanho da fonte. No iPad só pode ser melhor ainda.

10.12.09

IAUÊBA!


É impressionante a quantidade de considerações que nosso cérebro é capaz de realizar em milésimos de segundos, quando não pensamos com palavras. Se você tropeçar e estiver prestes a arrebentar os óculos contra uma parede, seu cérebro é capaz de pensar "não posso quebrar os óculos" a tempo suficiente de fazer alguma coisa. Mas é claro que estas exatas palavras não soam na sua cabeça. Tal pensamento acontece instantaneamente.

Pois outro dia fui vítima de uma situação assim. Meu cérebro pensou muitas coisas no intervalo de tempo em que eu tentava emitir uma palavrinha minúscula, me fazendo mudar de idéia sobre o que eu estava dizendo durante a fala. O resultado foi um tanto patético.

Fui buscar meu carro na garagem e ao passar pelo funcionário do estabelecimento prontifiquei-me a cumprimentá-lo, dizendo IAÊ!. Mas antes que eu terminasse de falar (talvez antes mesmo que eu começasse), o cara soltou um ÔBA!

Tentei adaptar minha saudação à dele, retornando o mesmo ÔBA. Mas num desses pensamentos relâmpago, me pareceu estranho e pouco original retornar a mesma coisa que ele acabara de dizer. Aí, não sei se tentei voltar atrás com meu IAÊ inicial, ou se tive a infeliz idéia de transformar ÔBA em ÊBA.

Acabei dizendo IAUÊBA!

Continuei caminhando tranqüilamente em direção ao meu carro como se nada tivesse acontecido, mas impressionado com a peculiaridade do que eu acabara de dizer. Agora imagine o que não deve ter passado pelo cérebro do outro cara...

IAUÊBA. Foi o cumprimento mais estranho que já emiti. IAUÊBA. Fantástico.

23.7.09

Tergiversa


"(…) e talvez seja isso que nos leve a ler romances e crônicas e a ver filmes, a busca da analogia, do símbolo, a busca do reconhecimento, não do conhecimento. Contar deforma, contar os fatos deforma os fatos e os tergiversa e quase os nega, tudo o que se conta passa a ser irreal e aproximado embora seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tenham sido ou acontecido, mas de que permaneçam ocultas e sejam desconhecidas e não contadas, enquanto se relatam ou se manifestam ou se mostram, mesmo que seja no que parece mais real, na televisão ou no jornal, no que se chama realidade ou vida ou vida real até, passam a fazer parte da analogia e do símbolo, já não são fatos, mas se transformam em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz em palavras nem imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto e se conte tudo, para que nunca tenha ocorrido nada, uma vez que se conta."

Javier Marías, Coração tão branco.

20.7.09

The Spirit

The Spirit

Dos quadrinhos de Will Eisner ao filme de Frank Miller

Will Eisner é uma área cinza entre a Graphic Novel e o Cartoon. E não há tom pejorativo nesse cinza. Eisner começou a publicar suas obras nos anos trinta, época em que uma tirinha de jornal era dar quadrinhos demais para um simples cartum. Mas foi nas tirinhas do American Sunday que Eisner, com seu traçado romântico, promoveu o começo da revolução do senso comum a respeito dos quadrinhos. No lugar da simples distração infantil, Eisner introduziu o quadrinho adulto e seqüencial. O sucesso de The Spirt nos early 40's levou o Sunday a incluir uma seção comics de 16 páginas, sendo The Spirit a principal atração do caderno.

Em 2008, Frank Miller, outro gênio dos quadrinhos - reinventor de Batman e Daredevil e criador de Sin City e 300 - trouxe para o cinema o personagem de Eisner. O filme não teve muito sucesso nas bilheterias e a crítica não gostou muito da releitura do Spirit à moda Miller. Para quem não é muito ligado nos quadrinhos, pode também ter sido uma decepção assistir The Spirit em meio ao frenesi de quadrinhos no cinema, embalado por Batman, Spiderman, Hulk, X-Men, Wolverine, Sin City e até Watchmen. Muita coisa deve ter parecido fora do lugar, ingênuo ou pastelão demais para os desavisados. Mas é aí que mora a beleza da obra e eu quero aqui usar a história dos quadrinhos em defesa do filme de Frank Miller.

O gurizão de hoje, que já consumiu Batman, Daredevil e Spiderman, pode achar que Spirit é só mais um justiceiro noturno defensor da cidade. O velho discurso e dessa vez sem nenhuma novidade, até menos recheado. Sim, porque vivemos tempos onde o simples justiceiro implacável já não satisfaz o público. Chega de Superman e sua bondade repugnante. Queremos equipes mutantes como X-men, anti-heróis como Wolverine, ou até equipes de anti-heróis como Watchmen.

Mas a verdade é que a invenção de Spirit é anterior à tudo isso, contemporânea à criação de Batman no último minuto dos anos 30. Não haviam, portanto, referenciais e muito menos clichês. O HQ como conhecemos hoje ainda era um cartum em transição, tirinhas em expansão. As histórias de Eisner estavam recém acostumando o público aos temas adultos, mas ainda se valendo do traço e do humor ingênuo da época. E sinceramente, o humorzinho inteligente de hoje em dia está saturando, e essa retomada da graça pura faz bem de vez em quando. (É por isso que Seinfeld sempre teve espaço para os tropeços do Kramer e até os mangás da febre moderna recorrem ao humor pastelão).

O ambiente da época ainda lhes permitiria uns 20 anos de vantagem para usufruir do clima Noir, até o final dos anos 50. E mais uma vez, era o Noir original, em desenvolvimento, não o Noir-referência de hoje em dia. Por isso, encontramos em The Spirit tanto jogo de sombras, tantas femme-fatales e um herói que por vezes mais parece um detetive secreto. Por mais vanguardista que fosse, enquanto fazia o Spirit, Eisner ainda era essencialmente um cartunista em libertação, até seu final em 1952. Somente em 78 Eisner publicou o que definitivamente pode se chamar de Graphic Novel, A Contract With God, considerada a primeira do gênero. E tudo isto foi transposto do original ao cinema com preservação e respeito por parte do Frank Miller. E acho que essa análise histórica explica e resolve todas as estranhezas dos espectadores novatos: The Spirit não é um filme de HQ. É um filme de HQ antiga, quase Cartum.

Mas é também um filme de Frank Miller. E Frank Miller não é dado a convencionismos. Ele homenageia Eisner, mas no embalo de Sin City e 300, jamais faria um filme que não tivesse o seu espírito. A ruptura se deu na parte visual, que puxou muito para o Sin City bem ao gosto de Miller, e restou pouco do traço cartunista de Eisner (mas restou algo). Frank Miller tem uma bagagem respeitável quando se trata de reinventar personagens. Se não fosse por ele, Batman jamais se entitularia o "Cavaleiro das Trevas" e estaria até hoje usando uma elipse amarela no peito de um uniforme cinzinha*.

Por tudo isso, The Spirit, filme de Frank Miller baseado na obra de Will Eisner, é uma obra-prima. Mais do que ser um blockbuster, é um filme que preocupa-se em oferecer uma forte experiência estética ao espectador e uma justa homenagem ao precursor das Graphic Novels.

A versão em DVD traz nos extras uma ótima entrevista com Frank Miller, onde ele fala sobre a evolução dos quadrinhos e o seu envolvimento com essa mídia. Conta como ganhou moral para promover mudanças radicais em personagens clássicos. Discorre sobre o formato das HQs de hoje que são uma limitação estúpida oriunda dos antigos jornais dobrados ao meio (formato HT = Half Tab = Meio Tablóide). E fala sobre o formato vertical da cidade, representado em Sin City e Spirit, em contraposição ao formato horizontal das paisagens abertas, motivo que o levou a publicar 300 em formato paisagem.

"Gosto de de bater o pincel no punho e ver a tinta respingar na folha e no rosto dos personagens. Já não acredito mais em erros". Sim, ele pode.

*As semelhanças são grandes entre Spirit e Batman, pois Will Eisner e Bob Kane trabalharam juntos na época da criação de seus personagens. E Frank Miller além de reinventar o Batman, revitalizou o Daredevil, personagem que eu entendo ser o "Batman da Marvel". Aliás, o Daredevil é cego. Uma característica que cairia perfeitamente ao homem-morcego, mas parece que passou despercebida pela DC Comics. Quem sabe mora aí a origem de uma nova era para o Batman? Pra quem já matou e ressucitou o Superman, isso até que seria sutil.

The Spirit COver

3.7.09

Vernissage

Oh shit, perdi meu iPhone em new york. Em plena vernissage.
Oh, que hard life. Garçom, outro martini, sim? Será que levaram para
o guarda-volumes? aquele plebeu é tão insolente... será que ninguém está vendo que meu cachimbo está apagado? fire please?? umpf. cuidado com este chapéu garoto, é handmade em couro de uma espécie de cabra australiana já extinta. Se ferí-lo não terei como repôr. Assim é melhor.
Você viu as obras? oh sim estão maravilhosas. Mas meus olhos estão cansados, vamos voltar para o hotel. Mande aquecer toalhas ocre, por favor. Da última vez que pedi ocre serviram-me amarelo queimado. Foi tão desagradável. Onde está essa limusine que não chega? quero um novo chauffer. E uma nova limusine. Oh sim, compre alguns quadros please, a decoração do hotel me dá enjôos.

27.6.09

Fragmentos

Pensamentos aleatórios de uma mente twitterada em um frio anoitecer de sexta-feira.


Não sei que dia é hoje. Não saio de casa faz tempo. Lembrei que havia um mundo lá fora. Só sei trabalhar. Saí da caverna. O mundo permanece o mesmo de antes. Não presenciei nenhum assassinato, atropelamento, guetos do crack ou máscaras cirúrgicas. O porco mascarado permanece intacto. Hoje ele ainda é pertinente. Mais do que eu pensei ser quando o concebi.

A gripe do porco foi interrompida pelo desvôo da AirFrance. Será que chegamos ao ponto onde a história da humanidade passa a ser determinada pelo que acontece na internet? O Ministério Tecnorgânico Adverte: O uso prolongado do twitter fragmenta o pensamento, diminuindo o packet-size do buffer cerebral. Robôs organizam o nível de bafafá em torno de tags e escrevem a nossa história com direito à "sort by:".

Duas quadras de caminhada e dói o meu fígado (ou é o baço?). Logo eu que sempre me orgulhei de desenvolver longas caminhadas sem ser afetado. Quem caminha afetado também corre o risco de parecer homossexualista.

Preciso parar de trabalhar ou de caminhar. Há um gato sorrindo no céu esta noite. Não importa onde esteja, ande sempre pelos lugares mais altos. Quando eu crescer quero morar na Dom Joaquim. Lá tem pracinha legalize e Padalarica Círculo Operário. Compre já o seu capacete rosa e seja você também um grande clitóris móvel.

Faço uma pausa do trabalho intenso que me consome para encontrar ninguém menos que meu cliente na padaria. Como se isso já não fosse suficientemente irônico, some-se o fato de que o este cliente mora incrivelmente longe dessa padaria que fica exatamente em frente à minha casa. Ao me ver ele diz "o prazo está chegando!". Ah, as traquinagens do (irônico) destino. Até agora tenho dificuldades pra acreditar que esse encontro foi real. Por via das dúvidas de volta ao trabalho. Dormir nem pensar, sério risco de pesadelos: o praaazo está chegaandoooo... MMMWWAAHH HAHAHAHAAAAAA! ¬¬

3.5.09

Metarquivando Pensamentos Propositalmente Espontâneos de Sandice

- Olá pessoal das (sic) internet!!! Tudo bem poraí? Pessoal ai de casa, tod'mundo bem? Que beleza então. ;) Me divirto com pouco, permutando entre níveis de linguagem característicos de universos intencionalmente distantes em ambos fatores culturais: léxico e gramático. Pois de universos de linguagem tenho, metarquivo, o que contar. Metafísica da Baqueta é um poeminha, que um poetinho faz quando não está poetando mais nada. Poes vamos lá.
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METAFÍSICA DA BAQUETA

Universo é a Baqueta, e Ela apenas há
nela age Deus, e sua Magnífica Mão
controlando de dentro para fora a divina rotação

há forças Naturais, dentre as quais Gravidade
no sinuoso Movimento a Aceleração faz Forma
ao balanço do Tempo, há Música constante

sobe e desce, Ela, esgueirando-se por entre os dedos de Deus
faz Forma em Tempo que é Dança
aventurando-se em uma quarta dimensão

o único Ser Conciente reina em Concentração
e só a Grave realidade, a esta, prevalece
padecendo a Magnificência à Natureza do Solo

toca o Solo, estridente, aguda Baqueta
tilintar ensurdecedor que quebra o encanto
cala a Música, exigue o Deus que só vaga a Mão

cessão-se as Danças e Rotações
até que Deus tenha denovo o Universo em suas Mãos
ele retorna a suas obrigações.

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Sentei minha bunda nesta cadeira em retorno ansioso ao computador. Vinha eu desde a cozinha, onde há café. O retorno motivou-se pelo recobro da outrora iniciada (e por hora já concluída, presumi) torrente de dados que aportaria em meu tranqüilo cliente de navegar na rede.
Pois qual minha triste surpresa se não perceber que nada era concluído. "Oh, que puxa vida!" exclamei eu em tom irono-eufêmico. Que faria de meu tempo até o desfecho dramático e derradeiro do aporte de dados daquela torrente.
Força.Tarefa.S01.E03.TVRip.byACMB.avi era importante para mim. Fora incapaz de alcançar um televisor no momento em que foi aerado em prime time. Uma incapacidade devida ao de meu intencional afastamento dos tubos e telas. Não é que creia eu que mal a tecnologia faça poder (poça father, possa foder ou possa fazer), sendo mais feito a crer em poder feito por quem mais tecnologia têm (what ever). Escolho eu! Alieno-me às pautas de quem edita. 'Ao que é pop', - talvez diga você -, digo eu. E é bem verdade. Mas que privilégio tenho eu pois que tenho acesso ao querer frente eles que veem apenas aquilo que lhes mostram! É como dizer: Editarei eu próprio, pois, o que leio. Que natural soaria. Não era o caso, contudo do conteúdo desta torrente aguardada, a quem coube editar um profissional do ramo.
Já estava sentado à cadeira, lápis e caneta repousavam sobre o tampo de vidro. Sentado frente a mim só ela, toda prancheta, abraçada em alvo papel seduziu-me o punho garrancheador. Até me gusta dar vazão a letra-gesto, me ritima a mente, tona o lápis.
Agarrei-o com firmeza precedida de um leve e sutil "golpe de pinça", preciso, perfeito e graciosamente, engrenado a um subseqüente aterramento suave. O cinza grafite toca o branco do papel usado com texto do outro lado. Que prazer o ruido do lápis marcando o papel, e ele por mim escreveu: "Metafísica".
Capturei-me a pensar um instante após o incidente do lápis. Era assim posto que ficara trancado naquela metafísica. Meu universo mágico havia se desfeito. Aquele momento particular, perfeito, quando de mim sairiam as mais belas palavras já ditas aos ouvidos humanos, desandou como um bolo. Que miséria era a minha. Não tinha mais aquele brilho, aquela magnificência. Minha torrente não chegara ainda.
Empapado de desesperança reclino o corpo na cadeira e o peso nos ombros. Uma curta girada na cadeira com a cabeça firmemente no encosto apoiada. Lá estava ela. Quietinha e já bem mimetizada ao ambiente. Repousando entre fio de fone de ouvido, papeis e moedas, no platô, posto ao cume da bancada ao lado, a Baqueta.
Reparo nela por um instante. Onde estaria ela, estaria ela já girando em relação a algo que não nos é comum? Como vou traze-la ao meu domínio para que gravite em minha mão?
Saco-a com o mesmo golpe que usei para capturar o lápis. Como de costume a aproximação oportunista transcorre sem maiores transtornos. Como seqüencia a este golpe costumo evoluir para uma posição estática que enfatize a velocidade e precisão do "golpe de pinça". Desta vez teve que ser diferente. A Baqueta é de natureza fugaz e traiçoeira. Precisava desviar sua energia selvagem para a perfeição do movimento revolucinário. Fiz com que subisse em minha mão. Chegou desacelerando, como que aguardando mais uma resposta, como cão pedindo aprovação. Era minha Baqueta, agora podia perceber.
Rapidamente ingresso-a em uma rotina de evoluções. A Baqueta passa e ficar previsível, progressivamente mais controlável. Agora eu domino a Baqueta. Eu sou a Baqueta, em pli.
Um ruído abrupto me captura, e, não fosse mecanizado o movimento do único astro daquele universo em formação, ele teria acabado. Onda após onda as freqüencias da evolução astral no universo parecem começar a ressoar aquilo que agora já reconheço como música. Era a abertura do vídeo contido na famigerada torrente. Nunca acontece. Nunca automaticamente meu universo estaria sem ou existiria sem música. Mas nunca ocorrera de automaticamente estar pleno, e com música. Pelos segundos que durou, aquela música era a divina forma do universo da Banqueta, e seu único astro em dança cósmica oscilava de forma magistral.
O volume do universo subitamente se reduz. O coração sabe que é chegada a hora. A música cessa. Em um derradeiro movimento, aqui apresentado em câmera lenta, se desenrola a desconexão cabal entre divindade e criatura. Em ambos universos morrem deuses. No universo da Baqueta, quando a criatura não mais esta em contato com o criador, o mais drástico acontece. O Universo não mais é.
Em outra cena, que também pode ser vista em câmera lenta, a Baqueta baila solene rasgando o fluido ar em seu mergulho final. Seu caminho é fatal, seu futuro infelizmente previsível.
O primeiro contato com o chão talvez seja o mais doloroso para um ex-deus no universo da Baqueta. Ela corta e perfura aquele deus cheio de si. Rompido, ele não mais pode conter-se em si próprio e expele sua divindade em seu último magistral suspiro. O corpo reaparece, e os ombros pesam sícronos àquele suspiro.
Hora de rodar mais uma vez a roda, digo, cadeira da fortuna. Aliás está passando o aguardado e originador causal audiovisual de origem torrêntica. Cheia de luz e sombra a seqüencia de imagens que sucede em meu monitor é palida frente ao brilho da alva folha de papel. Ela tem escrito, lá, bem no topo da folha, METAFÍSICA DA BAQUETA.
Vejam vocês: se tivesse mais cuidado ao ler o que escrevo talvez não tivesse devaneios madrugais em momentos cotidianos de aguardo por torrentes e fabrico de café. Aliás, que cheiro agradável este que invade meu quarto. É de café. É cheiro de café-que-já-ficou-pronto-ali-na-cozinha. Preciso me levantar agora, é pena. Mas essas coisas são da vida, como as baquetas que caem no chão, ou as palavra que caem no papel.
______________________________
Ditado e não lido por Adrian Neuhaus em um domingo, o terceiro dia do mês de maio daquele 2009 à exatas cinco horas e quarenta e sete minutos, e centavos acima descritos.

Nota de Esclarecimento:
Venho através desta nota fazer saber, aos mui dignos leitores desta publicação na Nossa Grande Rede, que o presente texto foi concebido sob severo efeito de café. Quaisquer disposições em contrário perdem o valor. Foi com imensa satisfação que em idos do mês passado perfiz a leitura de-cabo-a-rabial deste espaço de mentes livres que é o Pensatta. Pude nele, me ver. Mas não só, também me reportar a locais, conversas, idéias e pessoas com quem/onde/quando - e à cargo estive/mencionei/ouvi falar. Finalmente alegro me em reportar a vós que é com plenitude que me empolgo em retomar publicações neste distinto espaço, e,se não faltar tempo, nem café, ouçai-me-hás MetaArquiVocabular por cá em breves lacunas de tempo.
Atenciosamente,
Adriano von Neu Haus MacHado

7.4.09

Bah, que música tri!

A maioria dos jingles publicitários se resume a uma musiquinha chata o bastante para ficar gravada no nosso cérebro. Quase sempre o encaixe das informações do anunciante com a melodia e o ritmo são bastante forçados e não parecem fluir com naturalidade.

Mas vez ou outra, surge um clássico. Desde o final de 2007, não tem campanha melhor do que a de assinaturas da Zero Hora. Dá de dez a zero até mesmo nas milionárias campanhas da Coca-Cola, que sempre apresenta bons jingles.

A campanha da ZH, assinada pela Escala, é genial nos mais diversos níveis. Pra começar a música é realmente muito boa. O ritmo é empolgante, vai criando um clima crescente até explodir com "então ASSINA a zero hora...". Além disso, mexe forte com nosso orgulho gaúcho, utilizando chavões populares que só a gente tem, além do tradicional sotaque castelhano.

Os personagens também são muito simpáticos. Os bixinhos dos vídeos da campanha parecem aqueles toyart feitos de papel cartão. E cada jingle fecha perfeitamente com o comentário do polvinho, que reproduz, na verdade, aquilo que todo mundo pensa quando escuta o jingle: "Ah que musica tri!"; "Bah, se puxô em?" e por aí vai.

A agência desenvolveu uma letra especial para o jingle de cada estação ou momento.
Verão, final do verão, inverno, semana farroupilha, olimpíadas. E cada jingle também tem um vídeo, que é a versão da propaganda que passa na RBS TV. Vale a pena prestar atenção nos detalhes e nas referências que aparecem nos vídeos, tanto aos hábitos gaúchos (como comer bergamota no solzinho de inverno) quanto a clássicos do cinema e da música (abbey road e cantando na chuva, pra citar alguns).

Abaixo, apresento uma coletânea de todos eles, divirta-se gauchada!

Verão:


Final do Verão:


Iverno:


Semana Farroupilha:


Olimpíadas de Pequim:


Videokê (pra cantar junto, genial):


Teaser do Verão 2009:


Coisa boa quando aparece uma campanha desse tipo. Dá pra perceber que houve interesse e provavelmente muita diversão e satisfação no processo. Não foi uma campanha só pra ter uma musiquinha qualquer, foi algo muito bem planejado para cativar o gaúcho. A mim, cativou muito. Me dá mais orgulho de ser gaúcho e, inevitavelmente, passei a admirar mais ainda a Zero Hora. Parabéns a todos que criaram essas vinhetas geniais.

Bah, se puxaram tchê!

6.4.09

Redinaldo

Redinaldo corria como uma garça feliz todo dia na favela da cabrita.
Descia o morro com pernas finas e ossudas, pés no chão, calçãozinho de futebol e sem camisa, as costelas aparecendo e um gogó proeminente.

Sempre um sorriso no rosto. Dentes grandes e perfeitos, cavalares, brotando pra fora de uma cara ossuda e olhos arregalados.

Redinaldo parecia um corredor da Etiópia. O sorriso de Redinaldo escondia algum sofrimento muito grande. Não que isso fosse óbvio. Era um sorriso, afinal.
"Lá vai o Redinaldo!" Todo mundo gostava dele. Pagava sempre amanhã no bar da esquina. Era amigo de todos. "Esse negrinho é gente boa".

Ninguém sabia na verdade de onde ele vinha, nem para onde ele ia. Redinaldo passava sempre correndo de pé no chão.

Com um pedaço de meia calça na cabeça e um saco plástico na mão, Redinaldo invadiu o bar do seu Zé em plena manhã de terça-feira e mandou esvaziar o dinheiro do caixa dentro da sacola.

Sem camisa e com o mesmo calção de sempre, o disfarce de Redinaldo era patético. Seu zé achou que era brincadeira, Redinaldo, afinal, sorria. Redinaldo não falava muito. Ele apontava e corria. Aquele dia ele falou "À puta que te pariu, Zé!".

De dentro da sacola Redinaldo saca uma submetralhadora uzi e dispara milhares de tiros contra o rosto do seu Zé. O sorriso sempre no rosto. Os ossos, os olhos.

Correu como uma gazela sem levar o dinheiro. A história grotesca espalhou-se com detalhes ocasionais até chegar aos ouvidos de Dão, ou Nego Dão, o traficante que controlava a Cabrita.

Frente à frente com Dão o sorriso de Redinaldo fez crer uma tranqüilidade de malandro. Mas Redinaldo era um dadaísmo de Deus.

"À puta que te pariu, Dão", respondeu Redinaldo do alto de seu corpo esquelético. Dão e seus amigos gargalhavam.
"Foi isso que tu disse pro zé?"
"À puta que te pariu, Dão", repetiu Redinaldo e Nego Dão achou seus olhos mais arregalados e seu sorriso mais doentio do que o comum, e mal teve tempo de perceber que Redinaldo havia realmente mandado-lhe à puta que pariu, gargalhando em silêncio enquanto puxava o pino das granadas sobre a mesa, uma a uma.

Na explosão daquele dia morreu polícia, cachorro, galinha, traficante, mãe de família e o próprio Redinaldo, uma figura incompreendida graças ao seu peculiar sorriso.

Um maluco, um herói, uma incógnita, um negrinho-bom-que-foi-usado-por-gente-má, o diabo na terra, um santo de umbanda, variavam as opiniões: Era o sorriso que não deixava certeza de nada.

Lola


De quatro ao chão do box do banheiro, a bunda expandida pra cima e a boceta lhe saltando carnuda por trás entre as coxas, enquanto com uma mão ela amacia o seu ânus rosado com dois dedos por entre um exagero de creme condicionador que os faz deslizar tão suavemente para dentro que ela sente absolutamente dor alguma mas intenso prazer delirante, suas tetas pesadas enchem sua outra mão que os empurra contra a linda boca cardioforme de onde projeta-se uma rosácea, longa, sinuosa e sensual língua para encontrar os bicos entumecidos e aureolas inchadas, ora sacudindo-se, ora expandindo-se para os lados esmagados contra o chão frio causando-lhe prazerosa sensação de contraste térmico com seu corpo incandescente, levando-à gozar tão vorazmente que cora-lhe o rosto urrando em transe com sua boceta inchada que expulsa furiosos jatos do mitológico gozo feminino, mais tarde lhe escorrendo quentes pelas pernas roliças e agora frouxas do ato que lhe tomou em vertigem ao chão gelado, enquanto chove a água levando pelo ralo todos os segredos ali vulcanizados.

Shirley

O viadinho saiu correndo com a cara igual a um tomate esmagado. Cinqüenta anos no ramo e as mesmas merdas de sempre, só que eu já não tenho mais paciência nem necessidade de ficar me explicando. Cheguei onde cheguei e me dou ao luxo de falar só o necessário: serve, não serve, tá bom, tá ruim, te-manda-filho-da-puta.

Não sei onde eu tava com a cabeça pra contratar uma bicha. Ou melhor, eu sei, tava com a cabeça (do pau) enfiado no rabo da vagabunda. E que rabo, vale dizer.
É covardia, a puta mexe mais que touro mecânico, o melhor quarto do Brasil, quer dizer, o quarto do motel era uma bosta mas os quartos da potranca, "inenarráveis" (como eu li uma vez numa revista enquanto cagava). Mais troncuda que qualquer zagueiro da terceira divisão colonial argentina.

E olha que eu não sou nenhum marombado de academia. Sou magro, velho, feio e narigudo. Ás vezes eu tô gordo, mas sempre feio, narigudo, e cada dia mais velho. Mas eu tenho personalidade (pau grande). Isso eu não escondo, tenho uma benga de dar medo, mas é no medo que elas ficam molhadinhas e eu viro elas do avesso.

Mulher é bicho engraçado, me dar o rabo pra sair na revista não tem problema, mas tinha vergonha do fotógrafo. Pra agradar aquela munaia aceitei contratar uma bichinha. Tivemos que refazer todas as fotos porque não saiu uma foto que prestasse.

Que bicho infeliz é viado. A vadia queria receber o dobro. "Trabalhei o dobro", ela disse. Passei a vara no cu dela sem lubrificante pra ela ver o que é regatear comigo, tô nessa há muito mais tempo minha filha. Igual a ti eu ja botei várias pra dentro. Mentira, aquela não tinha igual. Mais aí eu penso, e tem mulher igual?
Acho que ela queria mesmo era levar ferro, depois desistiu de pedir o cachê em dobro e fez tudo direitinho. Pensando bem, mulher é tudo igual.

Revista de mulher pelada não tem quem não goste, homem ou mulher. E fotografar é a coisa mais fácil que tem. Ja corri a grito uma centena de artistão querendo enfeitar a cena. Besteira. O pessoal quer VER. Ver o cu, a bunda, a buceta com todos os detalhes. Ver a mulher de quatro, com cara de puta. É isso, é fácil. Cinquenta anos depois eu sei muito bem o que presta e o que não presta.

Bunda tem que ter sempre. E se a vadia não tem bunda eu já digo minha filha, nesse ramo o currículo é a bunda. E pelo visto tu não trouxe a tua. Peitão é legal, mas sem bunda não rola. Só volta aqui quando tiver bunda, tchau. Isso quando eu tava de bom humor. Hoje nem explico mais merda nenhuma. As mais patricinhas eu mando pagar um boquete, elas pensam que tá feito e depois eu digo que elas não preenchem os requisitos da revista. Quando ela faz carinha de choro eu meto dois dedos na bucetinha e com a outra mão pego da garganta e digo olha aqui sua putinha não vem fazer drama no meu escritório, tu veio aqui pra chupar pau, pra revista tu não presta. Te manda. E teve várias que voltaram, só pra levar de novo. Elas gostam, eu também.

Depois que ganhei uma grana montei meu esquema, eu só fico atrás da mesa. Nem sempre é essa putaria, tem dias que é corrido, mando entrar uma por uma, as vezes todas juntas, ficarem peladas na minha frente. Já elimino metade aí, não tenho que perder tempo com putinha meia-boca, ta cheio de potranca na rua. Umas são gostosas mas eu não vou com a cara. Sei lá, tem homem que é gente boa mas tu não vai com a cara dele, tem cara de otário. Mulher também tem isso, umas com cara de "eu sou cheia de opiniões" eu já mando embora. Gosto de puta, cara de vagabunda mesmo, e com sorrisão. Mulher tem que ter sorrisão, tem que dar o cu sorrindo, levar tapa sorrindo, e eu só rindo.

Mas deixa eu te falar do meu negócio. Revista tem que ter impacto e alta rotatividade. Tem coisa que é tiro e queda, por exemplo, mulher molhada. Molhada, ou então bezuntada com azeite, ou numa banheira cheia de leite, tanto faz. O negócio é que sempre que eu botei mulher lambuzada na capa da revista, vendeu pra caralho. Aí é fácil, se a mulher é gostosa, bota ela de quatro, agachada, arregaçada, tá feito, tem impacto. O marmanjo fica babando e 9 em cada 10 compram a revista.

Por isso que eu não gosto de playboy. Folheio aquela merda em 2 minutos e não vejo nada que preste, um desperdício. Os marmanjos pagam um nego e um cachimbo pra comprar a revista, esperando finalmente ver aquilo que eles ficam só imaginando quando a gata aparece na TV, mas que decepção: a revista mostra no máximo a bica dos teto. Se eu encontrasse aquele velho milionário filho da puta dono da playboy eu ia dizer: "your magazine is shit".

E é por isso que eu fico puto com os imbecis que aparecem pra fotografar pra mim. Porra, caralho, o viado pegou a shirley, essa morena dos quartos que eu falei, passou o dia tirando foto, umas duzentas, pra escolher umas dez ou quinze, e nenhuma delas mostrava o rabão com clareza. Só aquela coisa meio de canto, meio escondendo, vai tomar no cu seu viado. Que porra é essa? cade a bunda?

Aí o puto veio com um papo de que "o que não mostra é o que provoca", alguma coisa assim. Não entendi direito mas não gosto de papo de viado. Cheio de língua presa e firulas pra falar comigo, eu nem tava escutando direito porque ele fez uma coisa com o olho e eu não sabia se ele tinha piscado pra mim ou não. Por via das dúvidas, peguei um busto de bronze que tinha em cima da mesa, acho que era o Getúlio Vargas, sei lá de onde saiu aquilo, e enfiei no meio da fuça daquele viado de merda. Nunca mais apareceu.

Depois dessa fiquei louco por um cigarro, mas eu tinha parado de fumar. Entrou a Shirley na sala fazendo um escândalo por causa do viadinho. Como eu falei antes e não expliquei, revista tem que ter alta rotatividade. Isso quer dizer que depois que uma vadia vendeu a revista dela, tenho que arranjar outra e não posso me apegar. Já tinha enchido o saco daquela vagabunda também, e chamei meu parceiro Moisés. Aí Moisés, tem um crivo? já leva essa puta aí contigo. Viu só vadia? te troquei por um cigarro e eu nem fumo!

22.1.09

demissão

onde o jovem, ainda em período de experiência, é flagrado pelo seu chefe, em seu cubículo, acessando um site de lietratura, lendo um conto repleto de fotos de cunho um tanto assaz lascivo

É ARTE! EU JURO! Dizia ele ao ser despedido, sua carteira de trabalho sendo jogada aos seus pés, na calçada, a pesada porta de madeira se fechando, as aldravas balançando, furiosas, e a grande bota de couro com ponta de metal chutando-lhe o traseiro e gritando RUA! Nunca mais volte aqui! Entalhado no metal da bota lia-se SISTEMA. Uma fuligem cinza cai do céu cinza... a silhueta cinza dos prédios mal se delineando, as lágrimas sendo vistas no reflexo cinza do seu rosto pálido nas poças de água suja. E cinzas. A câmera afasta-se, abrindo a cena, saindo de dentro de uma TV em preto branco, na qual um gordo sem camisa com uma cerveja na mão dá fortes pancadas laterais e grita ESSA MERDA DESSA TV FICOU PRETO E BRANCO DE NOVO! Blam blam blam! O gordo pensa em ligar para o provedor de tv a cabo, mas o telefone está a 25cm de seu alcance. Ele permanece sentado e recoloca os eletrodos nas têmporas e o tubo de alimentação proteica de volta na fenda da laringe.

(Campelo + HumptyDumpty)

23.9.08

esc on debal'du crivoirij

Foi-me engraçado descobrir que VALHACOUTO é sinônimo de esconderijo. Salvem as palavras escondidas, órfãs porque ocultas! Quem é que vai adotar algo cujo valhacouto é desconhecido?

31.8.08

segunda ração do ano pro bicho não morrer de fome

PORRA! Me assustei depois de logar e ver no lugar onde mostra a data do último post que desde janeiro, mais precisamente o dia quatro, portanto desde o dia 4 de janeiro de 2008 é que os ensaios geraes não é alimentado. Pra matar a fome dele e salvaguardar a sua ALMA é que estou escrevendo esse post que parabolicamente e/ou redundantemente cumpre o seu objetivo de sanar a fome dos ensaios e a fome de escrever que é minha.

4.1.08

Google responde: De onde veio o grito?


o grito veio do banheiro.
O grito veio do fim do corredor.
O grito veio do prolongamento do corredor que era iluminado pela luz vermelha-chumbo de um por de sol poluído.
O grito veio do quarto.
O grito veio do quarto dos miúdos.
O grito veio do franzino e as crianças se abriram num berreiro feio.
O grito veio do dormitório feminino.
O grito veio do coração dela.
O grito veio do coração dele.
o grito veio do Rio Grande do Sul.
o grito veio do lago.
o grito veio do homem.
o grito veio do interior de minha mente.
O grito veio do lado de fora.
O grito veio do fundo do ônibus.
O grito veio do alto de um prédio.
O grito veio do sudoeste da casa do Santa Claus.
o grito veio do tal rapaz que na verdade “berrava”.
O grito veio do jovem garoto que carregava a caixa de pandora contendo a armadura de Pégaso nas costas.

20.12.07

Reative seu carrinho de feira


Descarregando as compras do supermercado hoje, contei em torno de 40 sacolas plásticas. E me pus a pensar como eu poderia fazer para abolir esta inconveniência.

Os americanos descartam 60 mil sacolas plásticas a cada 5 segundos.
Imagine uma pilha de 60 mil sacolas. Conte até cinco e imagine o dobro. Agora conte até dez e imagine o dobro do dobro. Assustador, não?
A poluição excessiva causada por este (ab)uso (histérico? frenético?) de sacolas plásticas nem precisa ser mencionada.

A preocupação massiva com o meio-ambiente já é tardia. Só com os sintomas aparecendo é que algumas e não todas as pessoas começaram a se mobilizar. Que mordam a língua agora aqueles que criticaram os hippies há 50 anos atrás.

Naquela época, no entanto, sem sintomas aparentes, até se entende que desconfiassem de previsões feitas por pessoas tão excêntricas. O problema era conscientização (a falta de).

Mas hoje, "consciente" todo mundo é. Mas isso não basta, falta ativismo. Falta fazer o sacrifício e adotar novos hábitos na rotina diária, fazer a sua parte (atenção, clichê adiante) como aquele passarinho que trazia água no bico pra apagar o incêndio da floresta.

Descarregando as compras do supermercado hoje, contei em torno de 40 sacolas plásticas. E me pus a pensar como eu poderia fazer para abolir esta inconveniência. Os supermercados, me parece, não estão nem perto de voltar a utilizar sacolas de papel para as compras.
Sim, é muito possível fazer sacolas resistentes de papel, com alça e tudo.
Mas eles não vão fazer isso tão cedo, então faça você alguma coisa em vez de comodamente lamentar a posição das corporações.
Colocar compras que já tem suas embalagens, dentro de dezenas de novas embalagens para cada uma delas, só pra levar até em casa, não parece muito lógico nem inteligente.

O que fazer, então? simples: não use sacolas plásticas, absolutamente.
E como eu vou carregar minhas compras?
Pare pra pensar em que momento realmente usa as sacolas, e verá que quase não as usa.

1. Você vai de carro ao Supermercado; (se você não tem carro, falaremos disso adiante).
2. pega todas as compras e coloca no carrinho;
3. leva ao caixa e faz o pagamento;
4. nesse momento o caixa vai colocar todas as suas compras em sacolas, às vezes colocando um único sabonete em uma sacola, ou usando duas sacolas, uma dentro da outra, para garrafas PET;
5. todas as suas compras, ensacoladas, voltam para o carrinho. Note que até aqui as sacolas não serviram pra nada;
6. você leva o carrinho até o seu automóvel no estacionamento e passa todas as compras para o porta malas. Na verdade, se não houvessem sacolas, o esforço seria o mesmo de tirar as compras do carrinho e passar ao balcão do caixa. Você não precisa de sacolas pra isso.
7. você vai de carro até em casa e pela primeira, única e última vez utiliza as sacolas de forma efetiva, para levar as compras até dentro de casa.
8. em casa, você tira tudo de dentro das sacolas e produz um monte de lixo não reciclável que vai levar centenas de anos para se decompor.

Nesses 8 passos, notamos que em todo o caminho das prateleiras do mercado até a despensa de sua casa, o monte de sacolas que você leva servem apenas para o pequeno trajeto da garagem até dentro de casa.
Ainda assim a logística é burra, pois ninguém consegue carregar todas as sacolas ao mesmo tempo, precisando ir e vir diversas vezes. Se você vai e vem diversas vezes, não faria diferença, então, levar as compras nas mãos.
Mas para agilizar o processo, o melhor seria uma forma de levar todas as compras de uma só vez e sem muito esforço... um carrinho! Mas onde conseguir um carrinho? lembra do velho carrinho de feira, aquele dobrável e com rodinhas? pois coloque-o de volta à ativa. Se não tiver um daqueles, compre. Você vai agilizar o descarrego das compras e nunca mais precisará de nenhuma sacola plástica.

E se eu não tenho automóvel?

Então já começou bem, pois caminhar é bom para a saúde e automóveis são poluentes.
Melhor que voltar a pé do supermercado com um monte de sacolas em cada mão, seria poder empurras as compras no carrinho até em casa, sem fazer esforço.
Então, arranje o seu carrinho de feira, vá com ele até o mercado e volte feliz da vida.

O que mais eu posso fazer?

Muita coisa. Em termos de sacolas, o supermercado é o principal problema, mas evite também pegar sacolas em momentos banais como ao alugar um DVD, comprar uma bebida, um chocolate. Você não precisa de sacola para estas coisas pequenas. Leve na mão, no bolso, na bolsa, na mochila.

E já que estamos falando de carrinho de feira, quem sabe ir menos ao supermercado e voltar a freqüentar a feira livre, consumir produtos não industrializados e de agricultores independentes?

23.11.07

anotações de conversa entre quatro senhores no café aquários

- Em vez de chupar b. vem pra cá e fica aí...
- Cansou de chupar b., cansou de chupar b. Agora fica aí...
- Daqui a pouco vai tá chupando p.

Depois que se cansaram de tentar me constranger, ao perceber que eu os ignorava e permanecia de cabeça baixa escrevendo ou desenhando, começaram a discorrer sobre alguns assuntos.

- Sabe como é que eles dizem? "Sou negro, sou pobre, não roubo e quero uma contribuição."

- A minha sogra e o meu sogro foram no Guarany (...)
terminou o cinema e foi pra casa.

- Pô, companheiro, se chega um magrão com revolver, que é que tu vai fazer? (...)
- Dava um tiro neles lá de cima da sacada.

- Esse prefeito, o coronel da brigada (...) são uns merdas. (...)
- Quinze pila, vinte pila... num teatro chega a ser trinta pila. Querem trinta antecipado, depois o cara volta pra pegar o carro e o sujeito nem está mais lá.
- Lá no Gasômetro, onde está tendo aquela exposição da RBS, não tem nenhum flanelinha: os brigadas tudo a cavalo, tudo a cavalo.

- Baixa isso aí, ô sem vergonha!

- Uma menor de quinze anos foi colocada na cadeia junto com trinta caras no Pará.

- Queres uma carona?
- Não, não, obrigado. Vou de taxi, fiquem à vontade.

- Deficiente cardíaco.
- Agora botou um marcapasso.

- O João trabalhava no computador, não ia ao médico nunca, foi fazer exame: cheio de ponte de safena.

- Sabe a Dona Maria? A Dona Maria, aquela senhora que serve o cafezinho com o dedinho assim, sabe? Esses dias perguntei pra ela: "Dona Maria, você tem algum problema respiratório? Tu anda fumando todo dia, eu fico preocupado." "Não, senhor, eu não fumo." "Ah, mas a senhora passa todo o dia aí atrás do balcão levando fumaça dos outros na cara."

Nesse ponto eles passaram a falar dos malefícios do cigarro e de suas qualidades cancerígenas, apontando que as características genéticas de cada um podem influenciar positiva ou negativamente de acordo com a pré-disposição.

- É, Joaquim, então a problemática toda da nação tá aí.

21.11.07

Floppy Dreams


Fazendo arrumação no meu quarto, resolvi mexer nos disquetes velhos. Após separar os estragados, apagar velharias de outros, encontrei este todo preto, sem etiqueta, sem nada.

Botei no drive. Havia somente um arquivo: "sobre este disquete.txt".

Confesso que eu me orgulho de mim em momentos como esse. Uma pequena surpresa que eu preparei pra mim mesmo. Eu sabia que iria me esquecer e um belo dia reencontrar o disquete.

O texto foi escrito em 24/11/2006, exatamente há um ano atrás. Acho que Novembro me dá vontade de mexer em disquetes.

Eu me arrependo de ter me desfeito do meu Atari. Não era na verdade um Atari, era um CCE (Atari-compatível). Hoje em dia um Atari é coisa cult.

Por isso eu guardo essa pilha de disquetes, espero que um dia eles também sejam cult. Ou que eu pense em algo inusitado pra fazer com um monte de disquetes. Mas vamos ao texto:

Parabéns, voce achou o disquete premiado. Vai ganhar um.. um.. hã.. um virgula 44 MB. ;)

Falando sério:
Este disquete é novo e está bom. Este documento foi escrito dia 24/11/2006;
Disquete, no entanto, é tecnologia ultrapassada, por favor, não tem um pendrive?

Não durmo fazem 48hs. O que nos leva aos devaneios. Não dormir pode potencializar a criatividade. Não dormir provoca uma sensação estranha de ultra-realismo.

Como se tudo fosse mais perceptível, cada pequeno evento. A luz é mais forte os sons mais audíveis, as coisas mais ásperas, mais nítidas.

A comprovação deste fato se deu empiricamente quando eu me indagava se isto acontecia apenas comigo, até que um dia um amigo que ficou 2 dias sem dormir comentou comigo, sobre como dormir causava-lhe uma sensação de realidade exacerbada. A mesma sensação. Plim!

A vida parece um filme do Sean Penn no estilo 21 gramas, meninos e lobos e outros tantos hiper-realistas com alto contraste e câmera balançando, tomadas inteiras, etc.
No entanto nao são estas as características sentidas ao não dormir. São outras.

É difícil descrever mas tudo parece mais real, ou pelo menos eu estou agora mais a par da realidade e acompanhando todos os alfinetes que caem à minha volta - para citar o exemplo clichê de pequenos eventos que passam a ser perceptíveis. Não necessariamente alfinetes estão caindo à minha volta... (isso seria bem estranho).

Anyway, preciso dormir agora, gostaria de saber qual o próximo estágio que minha mente alcançaria se eu continuasse desperto. Talvez eu saísse da matrix, talvez eu tivesse insights geniais 'a nível de' teoria geral da relatividade. Mas se a mente passeia por novos perfis de interpretação, se chega - se é que chega - a perceber mais do que o comum, o corpo age em sentido contrário e fica debilitado. Maldito corpo. Bendito corpo.

Tenho sono e preciso dormir. Escrevi demais e não consegui chegar num ponto de reviravolta para usar uma frase que eu pretendo ainda usar em algum escrito quando a história chegar a de fato alguma reviravolta muito incrível.

Eu direi: "eu deveria agora saltar uma página, deixar uma linha em branco, escrever 'capítulo 2' ou qualquer outra coisa que pudesse representar a mudança radical dos fatos que descrevo". Algo assim, é engraçado, embora eu normalmente deteste referências diretas ao leitor. Quando uso é em ironia ao fato de fazer isso em si, mas detesto ainda mais é nos filmes, quando o ator olha pra câmera e diz alguma babaquice blá blá blá não é mesmo caro espectador? se eu pudesse responder eu mandaria o ator à puta que o pariu.

Preciso dormir. Um fato interessante são os espasmos corporais. o corpo treme, principalmente os músculos da face, a pálpebra e os lábios. mas ninguém vê, só o desperto.

Talvez a hiper-realidade seja uma conseqüência (longa vida ao trema!) da falta de fantasia e de surrealidade do mundo dos sonhos. Morpheus deve estar indignado pois estou 48hs atrasado para nosso encontro. Ok Sandman, here I go.

14.11.07

Tropa de Elite

Em termos de cinema, Cidade de Deus faz Tropa de Elite pedir pra sair.

Tropa de Elite é um filme forte e explícito. Assim como o são, quaisquer filmes amadores feitos com celulares que mostrem algum tipo de flagrante grotesco e violento. Mas isso não quer dizer que esses vídeos sejam "bons filmes" ou belas obras cinematográficas.

Com Tropa de Elite há uma grande confusão entre ser um filme marcante e ser um ótimo filme; tem muita gente por aí achando que esse é o melhor filme nacional dos últimos tempos.

Tropa de Elite, como obra cinematográfica, é apenas razoável. Deixa a desejar em diversos aspectos. E um bom filme é, afinal, o conjunto de diversos aspectos.

Tropa não apresenta nada de inovador ou surpreendente para a linguagem do cinema: o roteiro é simples, a história é linear e óbvia, a perspectiva sobre o tema das drogas é maniqueísta e superficial.

Os recursos cinematográficos como direção de arte, montagem das cenas, enquadramentos e trilha sonora são meramente tradicionais. A trilha sonora, melhor dizendo, é ruim e mal utilizada.

"Cidinho e Doca", ainda é engraçado em sua precariedade, mas "Tijuana" beira a cafonice. Também não lembro da trilha sonora fazendo o complemento perfeito para alguma cena específica do filme.

O que sobra, então, para o sucesso de Tropa de Elite?

Além das repetitivas e gratuitas cenas de violência, que encontram respaldo na curiosidade mórbida do público, sobra o personagem principal, o anti-herói Capitão Nascimento. Com a ótima atuação de Wagner Moura, temos um personagem invencível (que não leva nenhum tiro, nunca), caricatural, exagerado e folclórico, cheio de jargões a serem histericamente repetidos pelo papagaio verde e amarelo (atende pelo nome de povo).

Para fazer uma comparação fácil, pense em Cidade de Deus. Este sim, um filme que retrata a mesma realidade, mas com um roteiro complexo, riqueza de personagens (com a perspectiva narrativa a partir de um personagem lateral e de sua trajetória particular), montagem não-linear e boa aplicação da trilha sonora. CDD faz Tropa de Elite pedir pra sair.

O que fica mesmo não é o filme, mas o personagem. Capitão Nascimento daria um ótimo personagem para uma mini-série em quadrinhos, algum tipo de Sin City brasileira, em um clima sambanoir onde o que importa são as breves aventuras recheadas de sexo, drogas, violência e presença de espírito nas frases clássicas do anti-herói. Sem nenhum compromisso em apresentar algum tipo de visão crítica e política, puro entertaining.

Talvez esse tenha sido justamente o erro do filme. Quis ser crítico e inteligente, mas desistiu, deixando um personagem promissor perdido em um clima de quero-ser-documentário. Não se tirou proveito de uma coisa nem de outra.

Um dia alguém disse que o cinema brasileiro vai ficar bom mesmo é quando ele deixar de querer parecer brasileiro. Não sei quem foi, mas concordo.